quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

serviço público



Pasolini: E então, o que acha dos "invertidos"?
Mulher: Um nojo! Espero bem que nunca tenha um filho assim...
Pasolini: E eu também assim o desejo!

cinema-punheta (2)


Se os filmes do Bressane e do Bellocchio são dois pornos-chachadas disfarçadas de "cinema sensual", Lucy é um inane "filme de acção" disfarçado de "cinema que debate um assunto importante". O pressuposto é o mesmo, mas no sentido inverso: aqui enche-se muita plano com diálogos e poses a estourar de "tema", para depois da "cultura" dada ao povo, libertá-lo com rajadas de metralha e balas e as mamas da Scarlett, matéria já vista há trinta anos em Hong Kong (menos a Scarlett). Banda sonora "cool", sempre a martelar. Não há conflito, não há ideias de cinema, não há nada que escape á debulhadora "entertainment" do Besson. Como sempre, aliás. As ideias "científicas" são de uma estupidez quase comovente. Um dos piores "cineastas" de todos os tempos.

cinema-punheta


Olga Roriz apresenta a sua nova peça: "O Queijo".

Acabado de ver o FCP-Desportivo das Aves do passado Domingo, e sem verdadeiro consolo carnal á disposição, tratei logo de procurar outro de índole intelectual. Bressane? Vamos a isto; pior que a Erva do Rato não poderá ser, nem mais aleijado do que a fusão genético-molecular Casemiro-Herrera. Que bem que começa Filme de Amor: duas cabras e um cabrão sentados a uma mesa, bebendo, fumando, tomando comprimidos, num ritual hedonista muito prazenteiro; plano fixo e banda de som impecável, para a imersão ser total. Fez-nos esquecer da miserável exibição-pimba do Brahimi. Depois começam a surgir planos-performance com diálogos e cauções filosóficas para o Bressane arranjar prestígio e desculpa para os seus delírios e parafilias. Isto de alcançar os céus da alta cultura e as "baixezas" da javardice popular não é para todos, filho. Uma gaja empina o cu a varrer a casa, pedindo enrabadela cultural. Pistas de som desincronizadas das imagens, que, Jesus nos livre de haver o mínimo de identificação entre espectador e personagens. Bressane a distribuir citações e lenga-lengas. Cultura não a sair do cu, como diz uma das personagens do Se7en, mas pela piça. Torrente de cultura. Vamos citar os clássicos , não esquecer Melville. A mesma puta empinada quer ser estrangulada com a pele de um rinoceronte. Já cagamos sensibilidade artistica pelas orelhas, e ainda vamos nos primeiros vinte minutos. Minetagem em acção, e depilação de prestígio. Centrifugadora de cultura. Bora, caralho, mais cultura e citações, que isto é sempre a abrir. Bressane não dá descanso. Bressane adora foda boa (excelente!) mas ainda mais de massacrar-nos. Temos saudades da Alessandra Negrini da Erva do Rato. Quase suspiramos pelo Serra. Este mundo não é para os ignorantes, diz-nos o Júlio. Mais meio Oliver no meio campo e não havia "génio táctico" que resistisse (ganda Jesus!). Aguentamos quarenta minutos. Não dá mais. Temos de ir á casa de banho cagar conhecimento e arte.

Maruschka Detmers, impressionante beleza


Sem tanta descarga de testosterona cultural, mas com os seus devidos méritos, é Diavolo in Corpo, do comuna Marco Bellocchio. Marco está-se cagando para delírios narrativos, "descontruções", simbologias agressivas e demais conas das tias. Filme linear, nesse ponto estamos safos. Mas logo surgem as problemáticas do amour-fou, da "nudez artistica", da babosidade nas cantos da boca do Marco, nas cenas de sexo que duram e duram e duram, para mostrar, claro está, "a cumplicidade e o ardor dos corpos". A Marushcka Detmers na altura estava em alta. Tinha sido a Carmen do Godard, e bem imaginamos o que o velho mestre, um dos maiores rebarbados e misóginos da "magia da história do cinema", terá feito á pobre piquena. Aqui, a bela holandesa limita-se a mamar explicitamente, cousa pouca. Por entre as fodas, Hegel, Marx, e não esquecer a "ferida" das Brigadas Vermelhas. Maruschka está com uma pintelheira épica. Terrenos de Emmanuelle circunscritos por aleivosias caucionárias. Resumindo: mais um punheteiro a pedir desculpa por o ser.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

As leituras de 2014


Apesar da continuação do desbravar do mundo dos espiões do Le Carré, estas duas maravilhas emocionaram. Vai chegar em breve.

Magnífico riff no limite ou já no território do mau gosto

But the euphoria soon passed

Vou ver o Falstaff e aí aos dez minutos apercebo-me que não estou a ver nada, penso em sair da sala, mas deixo-me ficar. Volto a olhar para o relógio e vamos em meia hora, penso que se sair da sala, não vou ter nada para fazer de qualquer maneira. Decido outra vez ficar e tentar concentrar-me um bocado no filme. Noto que a cópia é deslumbrante. A fotografia preto e branco também, Welles touch, os ângulos, os enquadramentos, as sombras. Isto é capaz de ser um grande filme e eu a cinco metros da tela a perdê-lo. A cabeça volta a divagar. Olha, a Jeanne Moreau. O Welles cabotino como gostamos. Ah, vem aí a batalha de que se fala; e começa com uns enquadramentos meio soviéticos, de facto. Confere, portanto. O filme acaba. Vou ter que me esquecer dele por completo para o ver pela primeira vez, é uma pena. Numa noite destas, há uns tempos, não se ia à Cinemateca; ia-se ao King ver uma merda qualquer, exigindo menos, dando menos também, claro. Mas sentia-me aconchegado, não me perguntem, era assim e pronto. Deixei passar o primeiro aniversário do seu encerramento. Foi no passado dia 24 de Novembro.

sábado, 29 de novembro de 2014

epá, se ainda não viste, não leias isto


Boyhood começa da pior maneira possível, ao som de uma das piores músicas de um dos mais insuportáveis grupos de sempre, portanto, um dos maiores pedaços de merda já elaborados na história da Humanidade. A impressão é tão forte e douradora que durante para aí um quarto de hora há uma brisa irritante a percorrer-nos o corpo, e damos por nós só a admirar as mamas da Patricia Arquette ou a matutar no porquê do Linklater ser para os críticos americanos (e para o Rosenbaum) um dos seus realizadores preferidos, quando, aparte o Before Sunset (e aqui mais pela relação que estabelece com o primeiro filme, do que propriamente pelo valor em si), a sua obra só nos provoca encolher de ombros. Mas lentamente começam a surgir cousas bonitas...


... e um certo nível de torpor hipnótico começa a deixar rasto. Acumulam-se os pequenos-nadas, as grandes insignificações da vida, os acontecimentos banais e menos banais a ritmo regular e cuja sucessão é marcada por cortes que fazem serenamente passar anos em um segundo, sem separadores a marcar tempo. Há um desejo de identificação universal fortíssimo a pairar por aqui, e é por este ponto que os vilões poderão pegar para desbastar Boyhood: todos os acontecimentos que associamos a uma infância e adolescência "normal" estão presentes, sem deixar tempo e espaço para psicologias e catarses dos trezentos, no pior dos cenários, "manipulação ". Mas não queremos saber. Seguimos em frente. As mamas da Patricia vão descaindo ligeiramente mas continua uma belezura, a filha do Linklater começa a dar sinais de uma introversão comovente, e mais maravlhas nos vão presentar a acefalia...


...e fazem-nos admirar mesmo aqueles (breves) momentos tipicamente à Linklater, com diálogos sobre o sentido de "isto tudo", aqui inseridos sem causar distorção e indiferença. Nunca há rupturas, assaltos sonoros e de imagem, e quanto mais tempo passa mais o que ficou para trás ganha ressonância. A Patricia vai ganhando barriga, a filha do Linklater ouve Lady Gaga e pinta o cabelo, o Obama está prestes a ganhar, e vamos seguindo. Seguindo até ao fim, até esse sublime plano final, olhares e silêncios a pedir cumplicidade e planos para o futuro. Que o filme comece com uma das mais miseráveis cancões de sempre e termine com uma das melhores dos últimos , pra aí, vinte anos, não deixa de reflectir o lento mas crescente embasbacamento com Boyhood. Foda-se.


ps: Boyhood começou a ser rodado precisamente no mês em que o Sporting foi campeão nacional pela última vez. 


estamos a bater palmas